Preçário novo de serralves – e a política cultural?

Em 2013, quando pertencia à associação de estudantes da faculdade de letras, orgulhava-me de informar a comunidade estudantil de que havia acesso gratuito ao museu de serralves mediante a apresentação do cartão de aluno. Achava um política maravilhosa, que até fez com que algum dos meus colegas passassem a ir lá com mais regularidade. Não sei se muita gente se apercebeu mas, neste mês, visitar o museu de serralves tornou-se bastante mais difícil. Para além de o bilhete agora ser 10€ (sim, dez euros), os estudantes já não têm acesso gratuito (apenas 50% de desconto) e os quatro domingos (das 11h às 13h) gratuitos passaram a apenas um, o primeiro do mês. Ou seja: ou podes estar lá no momento exacto em que os astros estão alinhados e visitar o museu em três horas no meio de um mar de gente insustentável; ou és estudante e tens 5€ para dar (há muita gente que não tem, e não, não basta abdicar de 5 cervejas), ou chimpas 10€ que te lixas, ou deixas de visitar o museu de serralves. Honestamente, dá-me vontade de optar pela última. Mas terei de ter a sorte (ou o azar) de poder lá estar naquelas três horas de enchente, ou pagar mesmo os 5€, porque felizmente posso, ao contrário de muitos estudantes. Já um amigo meu, com quem combinei visitar a exposição do Wolfgang Tillmans, trabalha ao domingo de manhã e já não é estudante, ou seja, ou paga 10€ ou vai mesmo ter de desistir da ideia. Com isto pergunto como raio justifica serralves estas alterações todas às condições da bilheteira, e o que é que procura atingir com isto exactamente. Vamos pensar: será que vão fazer mais dinheiro em bilheteira, ou vão apenas demover muita gente de ir visitar as exposições? Espero que haja noção do país em que vivemos, no qual, por um lado, temos muitos jovens com pouco hábito de visitar exposições e que desta forma é que não terão acesso a elas, e, por outro, vivemos uma situação social dificílima que levou muitas famílias ao limiar da pobreza. Sim, para muitos estudantes é um sacrifício enorme dar 5€, mesmo que queiram imenso visitar o museu. E para grande parte da restante população é obviamente difícil dar 10€. Procurei por algum comunicado, alguma justificação, alguma dramática história de falência de alguma coisa que justificasse esta nova situação, mas não encontrei nada. Nem acho que haja alguma justificação válida, honestamente. Não sei quem aprovou a medida, se acham que é uma boa política num país em que se tenta (ou deveria tentar) fazer alguma formação de públicos (admito que não sou fã da expressão). Num país em que o orçamento para a cultura é miserável e, desse, 63,5% vão para a RTP, já pouco me admira. Mas esperava mais de Serralves.

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Os Mutantes

Hoje vi, pela primeira vez, o filme “Os Mutantes” da Teresa Villaverde. Estreado em 1998, é um filme sobre juventude, na rua, nas famílias disfuncionais, nas casas de acolhimento, ou melhor, em nenhum desses sítios. Ou em todos ao mesmo tempo.

Uma rapariga, dois rapazes, uma sensação constante de desintegração e desamparo, entre gravidezes, borracheiras e agressões. Mas também alguns lugares onde as luzes parecem iluminar-se para dar palco a uma dança (ao som de cassete) entre duas raparigas dentro da instituição. Ou a uma criança que canta com o acordeão ao lado de uma fogueira improvisada. Walkmans, cassetes, e até salões de jogos são coisas que estão agora pouco (ou nada) presentes no nosso dia-a-dia, mas que são o retrato de uma geração – ou de uma última geração antes de tanta aceleração. E na vida destes jovens, são pequenas coisas mas pequenos refúgios de uma vida onde nenhum sítio é abrigo. Onde se faz sentir com violência o frio das ruas e a ausência de uma refeição. E, acima de tudo, a mais profunda falta de afectos. E no final de contas, trata-se afinal de deambulação, em busca de algo que nunca vem, ou em fuga de algo que prende mas não é refúgio.

O filme tem cenas duras, violentas, tão violentas como os dias que retrata. Mas é simultaneamente duma singeleza fora do comum, sem isso significar, de forma nenhuma, leveza.

No final, o ecrã negro é acompanhado da voz de Zeca Afonso com “Que amor não me engana”, de cuja música me parece fazer todo o sentido isto:

“E as vozes embarcam num silêncio aflito
quanto mais se apartam mais se ouve o seu grito”

Junto deixo alguns fotogramas que tirei do filme e que mais me marcaram.

El derecho de vivir en paz

Ontem o Rodrigo Cáceres – um querido trovador chileno – esteve no Gato Vadio, no Porto, a cantar-nos muitas músicas suas e algumas dos seus ídolos. O momento mais emotivo da tarde foi quando cantou “el derecho de vivir en paz” de Vitor Jara. Várias pessoas acompanharam, entoando essa frase, e acho que todos sabíamos do que estávamos a falar. Não sei se me emocionei pela revolta sobre o momento que vivemos, ou se pelo gesto de subversão e solidariedade. Talvez pelos dois. Depois das ditaduras do século XX, de Hitler a Pinochet, depois de Aushwitz, de Hiroshima e Nagazaki, depois das maiores atrocidades cometidas num momento em que tanto se alimentou a esperança de sociedades evoluídas, que aprendeu o mundo afinal? Não se aprende nada com a história? Porque julgamos o mundo por ter virado a cara ao que se passava em Aushwitz, se ignoramos o que se passa na Palestina, hoje, agora, todos os dias? Um massacre que mata inocentes, pessoas a quem lhes foi roubado o território, as casas, os hospitais, as escolas, os filhos. Pessoas que estão feitas reféns atrás de um muro que não cai. E nós viramos a cara. Debatemos o que não é debatível. Calculamos de quem é a culpa, fazemos de um esmagamento uma luta, vemos inimigos onde há um opressor e um oprimido. Viramos também a cara à notícia de hoje sobre o atentado a uma mesquita na Síria que fez 70 mortos, entre eles 5 crianças. Setenta. Setenta pessoas. Podiam ser filhos, primos, irmãos nossos. Mas são apenas crianças sírias. O Estado Islâmico reclama o atentado. Esse monstro se ataca em França, mas indiferente se ataca na Síria. As vidas francesas valem mais? Será por estarmos habituados à paz por aqui e à guerra por lá? Não são na mesma crianças, pais e mães, famílias que tentam viver, construir laços, educar-se, sorrir, dormir sem sobressalto? Há pessoas que são feitas para sobreviver em vez de viver? Que estão destinadas a fugir, a esconder-se, a chorar, a abraçar quem amam com a preocupação de ser a última vez? Porque temos medo delas, se são mais vítimas que nós? Frágeis, sem rumo, a fugir em desespero, a tentar salvar-se, a procurar uma vida melhor para a sua família, e, como se não bastasse, atacadas pelos países supostamente civilizados. Atacadas duplamente, no seu país, numa guerra que não é sua e da qual são vítimas também, e atacadas quando tentam fugir a essa guerra. Vêm fronteiras fechadas, ou são obrigados a usar uma pulseira como um dia usaram os judeus. Há até crianças a desaparecer nas mãos de organizações de tráfico humano, ou a dar à costa depois dos sucessivos naufrágios de barcos de refugiados. E nós estamos a olhar para onde? Vivemos no nosso tempo? O que andamos aqui a fazer? Porque é que é tão fácil culpar o passado pelo que lá se permitiu, quando hoje não assumimos responsabilidade por nada? Ainda vamos assistindo à criação de alguns grupos e movimentos contra a guerra e pela liberdade de todos os povos. Ao menos isso. Estar no mundo e não ser solidário é assinar a sentença de morte de tudo o que criámos. Não respeitar a existência de alguém, não aprender a coexistir, é abrir terreno para que um dia os oprimidos, os desesperados, os mortos sem piedade ou notícia sejamos nós próprios. É urgente ver e sentir empatia e incómodo, é urgente falar e denunciar, é urgente receber de braços abertos as causas dos outros e não só as nossas. Pela liberdade da Palestina, pela paz dos sírios e de todos os povos, para que aprendamos a ser solidários e abrir os olhos ao momento que vivemos e ao mundo em que estamos.

As Respigadoras

Conheci a Maria Luíza em Setembro, quando deixou o seu emprego no Ministério da Saúde do Brasil e veio de Brasília ao Porto para tirar um mestrado em Práticas Artísticas Contemporâneas. À medida que fomos desenvolvendo os laços que a arte exige, conversando e desenvolvendo trabalho conjunto, apercebemo-nos do nosso interesse comum pelo registo das ruínas da cidade do Porto. Sempre presentes desde a minha infância, fui desenvolvendo desde cedo um interesse por registá-las por meio da fotografia e, mais tarde, do vídeo. A Maria Luíza chegou em 2015 e não conseguia acreditar na quantidade de casas entaipadas que existem nesta cidade. Tantas casas onde se viveram tantas décadas de história, que carregam uma memória maioritariamente anónima mas da qual se sente o peso. Elas estão lá, as casas, em todas as ruas. Está a ferrugem, os líquenes, a madeira envelhecida, o entulho, os pedaços de azulejos, as fachadas sem interior, as gaivotas que sobrevoam planando numa histeria colectiva. E estamos lá nós, a registar tudo isso. E mais algumas coisas também. Encarnamos o papel de respigadoras, nesta nossa lenta recolecção daquilo que parede perdido e esquecido, trazendo para a luz aquilo que está na sombra.

O João Sousa Cardoso, na categoria de docente da cadeira Pensamento e Prática da Arte Actual, lançou o desafio de desenvolvermos um pequeno projecto que reflectisse sobre algumas questões discutidas ao longo do semestre. A modernidade pensada por Baudelaire e Walter Benjamin, o espaço e o lugar na arte contemporânea, entre outros tópicos que nos cabe a nós reflectir enquanto fazemos. Abrimos um blog, onde publicámos e continuaremos a publicar registos da nossa vida nesta cidade. Convido-vos a visitarem e acompanharem a nossa jornada.

https://free1404.wordpress.com/

Escobar returns

No ano passado fui aconselhada duas vezes a começar a ver a série Narcos. A verdade é que, se as opiniões de quem viu eram muito positivas, pouco se ouviu falar da série em portugal, não sei se por falta de divulgação ou por falta de interesse. Decidi começar a ver recentemente e, a meu tempo, acabei esta semana de ver os 10 episódios de uma temporada que é fácil ver num dia.

Já todos ouvimos falar de Pablo Escobar, o barão da droga colombiano, chefe do cartel de Medellín, na Colombia. Mas esta série dá-nos uma visão muito mais aprofundada e chocante do quão monumental foi a influência e violência de Escobar, um só homem que fez um país refém das suas vontades, num regime em que toda a gente tem um preço e numa família em que o dinheiro não é definitivamente um problema. Narcos é produzida por José Padilha, director brasileiro que realizou Tropa de Elite, e é protagonizada por Wagner Moura (também actor do filme) que interpreta a personagem de Pablo Escobar. Sim, um brasileiro a interpretar um colombiano. Ao início a pronúncia soa um pouco forçada e atabalhoada, mas cedo nos habituamos a interiorizar isso como a pronúncia da própria personagem. Escusado será dizer que a interpretação de Wagner Moura é excelente (de resto, como sempre) .  Dura, crua, intimidante, mas bastante modelada e com várias facetas integradas de forma muito natural. É claro que esta série, tendo um cariz biográfico, possui também uma vertente ficcional que a torna mais rica, de outra forma não poderia ser. Daí não podermos ter sempre a certeza se tudo aquilo se passou exactamente da mesma forma. De qualquer modo, comecei por sentir um certo fascínio pela personagem (como sinto sempre por este tipo de personagem, é um certo guilty pleasure), que sai impune de tudo, bandido, imponente, e que por outro lado dá aos pobres, constrói casas, sente afecto, compaixão, respeito pela sua comunidade. Mas esta série parece querer mostrar-nos um percurso psicológico degenerativo através do qual Escobar se torna cada vez mais violento, sem limites, cada vez mais egoísta, capaz de sacrificar tudo para levar a sua avante. E acaba por chegar o momento em que a sensação é de repúdio, nojo quase, de um homem também fisicamente degradado, mal cuidado, de olhar lunático, trato cada vez menos elegante, cada vez menos racional e ponderado. Penso que a ideia deverá ser exactamente essa, o gerar de uma crescente aversão à personagem (não só ficcional como histórica).

O curioso desta série é que possui um narrador constantemente presente, que lembra o passado e intensifica os acontecimentos e a percepção que temos dele. Mas ainda mais curioso é que essa narração seja feita do ponto de vista das autoridades que tentavam capturar Escobar. O narrador é um agente norte-americano (claro) da DEA, um loirinho fofo com pinta de herói e salvador da pátria. Ele e o seu companheiro Oberyn Martell são destacados para a tarefa de capturar Escobar, tomando-a cada vez mais um  objectivo pessoal, que colocam à frente de quase tudo, inclusive da própria lei. Um pouco aquele cliché do herói da pátria que precisa, deve e tem legitimidade para infringir a lei se isso for necessário para  apanhar os maus da fita. Nada a que não estejamos habituados. O loirinho, que chega à colômbia com uma esperança ainda naïve de que a coisa vai ser fácil e rápida, evolui ao longo da temporada, acabando por colocar a obsessão por Escobar à frente de tudo e perdendo alguns princípios que parecia ter no início. Não me seduz esta evolução, não entendo se é crítica ou se a intenção é enrijecer a personagem ao ponto de se tornar quase um robot ao serviço de uma missão. De resto, não me admira que Wagner Moura tenha sido o único actor nomeado para um Golden Globe. É o que não me convence, a parte mais hollywoodesca da série: a supremacia dos EUA (as always), que vêm salvar o país subdesenvolvido, na forma de um herói banal e um pouco forçado. Parece-me o mais desenquadrado e desnecessário. Já a série, o desempenho de alguns actores, a filmografia, a captura da paisagem e da cultura, a banda sonora, a luz, os planos, os aspectos mais estéticos, tudo isto parece-me muito especial e bem pensado. Resta esperar pela segunda temporada, que está prometida já para este ano.

Deixo-vos com o genérico inicial da série, com música do Rodrigo Amarante:

Tascú: da boçalidade

Ontem deparei-me com uma publicação horrorosa na página oficial de um restaurante chamado Tascö (com trema, para ser fino). Os donos acharam que seria engraçado publicar a foto de um pedaço de carne de vaca crua com a descrição: “Podia perfeitamente ser um pedaço da Érica Fontes… Mas é de uma outra vaca”. Érica Fontes é provavelmente a actriz porno portuguesa mais conhecida, por ter ganho em 2013 o XBIZ award de actriz estrangeira do ano. É uma pessoa que trabalha na indústria do sexo? Sim. Se acho piada à forma como a indústria pornográfica funciona, objectificando a mulher para usufruto de um público maioritariamente masculino? Nem por isso. Se acho que a Érica não se respeita a si própria por o fazer? Não, de forma nenhuma. Vi-a dizer numa entrevista que adora aquilo que faz, por isso só tenho de respeitar o seu direito de fazer o que quiser com o seu corpo. Se não se sente mal, qual é o problema? Bem, os responsáveis do tasco não só não pensam da mesma forma, como acham que publicamente podem insultar uma pessoa e sair impunes. Não é que vaca tenha para mim carga de insulto (acho só ridículo), tal como puta para mim é um pretenso insulto um pouco patético (também não acho que as prostitutas sejam menos mulheres ou pessoas). Mas a carga foi essa e a intenção foi a de reduzir a Érica Fontes a uma mulher que não merece respeito. Quer dizer, foi ainda pior que isso. A imagem não tinha simplesmente uma vaca – tinha um pedaço de carne de vaca. Para estes senhores, uma actriz porno não é uma mulher, nem sequer uma pessoa: é um pedaço de carne. Que mais opiniões evoluídas terão estes senhores? As mulheres que têm relações descomprometidas com quem querem, também são pedaços de carne? As mulheres que vestem saias curtas e vão para o bar só para se divertir, dançar e agir sem pudores, são pedaços de carne? Mas quantas mulheres assim já terão passado neste restaurante? Já agora, se fosse um homem actor porno, também seria um pedaço de carne? Meus senhores, estamos no século XXI, num país (supostamente) evoluído. Talvez devam voltar ao século de onde se perderam, ou emigrar para um país onde as mulheres ainda não tenham o direito de fazer o que bem entenderem com o SEU corpo. Metam isso na cabeça, sei que deve ser complicado: o corpo da Érica Fontes é dela. O meu é meu. O corpo de cada mulher é pertença apenas duma pessoa: ela própria. E bem sei que vocês devem sentir-se intimidados perante a ideia de uma sociedade de mulheres emancipadas, sem complexos, sem preconceitos, que tenham sexo com quem queiram, com quantas pessoas queiram, com ou sem compromissos, com ou sem dinheiro. E já agora, digam-me: quem está mais reduzida e dominada? A Érica Fontes a fazer dinheiro com aquilo que gosta, ou eu a trabalhar no vosso restaurante de merda, das 16h à meia-noite (ou noite fora) por 2€/hora (muito abaixo do salário mínimo nacional)? Sim, não me esqueço que foi isso que me ofereceram quando fui a uma entrevista nesse sítio. Já agora, sítio muito giro, modernaço, jovial e simpático. Boas obras que o espaço levou. Pena que não percam mais tempo a fazer o mesmo com as vossas mentes retrógadas. É que o nome do vosso estabelecimento pode ser muito pseudo-gourmet, mas de atitude vocês não passam mesmo de um tasco rasca e sem nível absolutamente nenhum. Para a próxima pensem duas vezes antes de fazer a piadinha e ainda gozar com a cara de quem se sentiu indignado com o que viu. E já agora, vocês insultaram toda e cada mulher que põe os pés no vosso estabelecimento. E não, a liberdade de expressão não serve para oprimir a liberdade de outras pessoas.

Que força é essa

AVISO: Pode conter vestígios de aveia, trigo, frutos secos, e talvez um spoiler ou outro.

CONFISSÃO: Sim, esfolem-me viva, sou daquelas pessoas que sempre se recusou a ver star wars, usando o típico “não me puxa muito” ou “não gosto de cenas do espaço”. Passei a minha infância a ver desenhos animados e a minha adolescência a ver filmes de questões existenciais, amores falhados e gravidezes adolescentes. Deixei o espaço e as naves para uma fase menos histérica e dramática da minha vida. Não me arrependo. By the way, ainda não vi os eps. 1, 2 e 3. Não me arrependo também.

Ontem fui ao Dolce Vita ver o novo Star Wars (The Force Awakens). Para além de o shopping em si parecer um cenário um pouco falhado de interior futurista de uma nave com praça da alimentação (que nem mc donald’s tem, whaaaat?), passei o filme todo a ouvir os comentários parvos de uma pessoa sentada dois lugares ao lado. Nunca mais levo o meu irmão ao cinema.

Mas sobre o filme. Parece-me claramente exagerado dizer que é o melhor filme de sempre (compreendo o entusiasmo) mas parece-me ainda mais injusto dizer que é um mau filme. Em primeiro lugar, não se pode exigir de um star wars algo que ele não foi feito para ser. Em segundo lugar, gente, está grande cena. Se nos anos 80 os efeitos especiais eram feitos com muito menos meios e por isso ainda hoje os dos starwars (ep IV, V e VI) nos parecem bastante acima da média, em 2015 um filme já não se destaca por uma boa execução desses efeitos.  Agora é mais importante que nunca pensar os planos,  os jogos de luzes (neons de sabres de luz na penumbra das naves dão para tanto), as paisagens variadas de deserto arenoso, montanhas com neve ou florestas verdes, grandes discursos com milhares de soldados e estandartes a lembrar o regime nazi, e tantas coisas que devem ser pensadas ao milímetro e com muita exigência se o objectivo é chegar aos calcanhares do George Lucas.

Sobre as personagens. Entendo o sentimento de afecto que fez as redes sociais inundarem-se de imagens do BB-8 (eu própria lancei alguns “oooooh” no cinema), e é claro que é uma arrumozinho ambulante com bastante importância na história, mas não me parece uma personagem assim tão fora de série como a fizeram parecer. Finn é uma personagem que aparece do nada, com motivações que ninguém entende muito bem, que se move apenas por uma paixoneta, e que é constantemente humilhado no seu desejo de ser o cavaleiro andante de Rey, acabando por ser salvo por ela. Isn’t it ironic? Rey – órfã, sucateira, autónoma, guerreira (e, já agora, linda de morrer) – é claramente a personagem principal do primeiro episódio desta trilogia. Sim, uma mulher. A mulher que salva BB-8 de ser levado para a sucata, que salva Finn de ser capturado, que pilota a nave de sucata que vem a descobrir ser a Millenium Falcon, que ajuda Han Solo a lidar com a nave sobre a qual já está desactualizado, que é capturada pela Primeira Ordem e consegue libertar-se sozinha descobrindo poderes que não sabia que tinha, que derrota Kylo Ren, que encontra Luke Skywalker. Uma mulher que ainda não percebemos bem quem é e de onde vem (ficamos inconscientemente à espera de mais uma revelação chocante), mas que já percebemos que vai continuar a ter um papel importante. E Kylo Ren? Uma personagem que, ao contrário de Darth Vader, não evolui muito ao longo da história por não possuir uma grande densidade psicológica, mas que certamente evolui na imagem que temos dela. Não nos enganemos: toda a gente conhece Darth Vader. Quem viu os filmes e quem não viu. Quem gosta e quem não gosta dos filmes. Toda a gente sabe quem é, toda a gente sabe trautear a marcha imperial, toda a gente sabe pelo menos uma fala (nem que seja um pouco adulterada pela cultura pop) e arriscaria dizer que toda a gente se arrepia um bocadinho quando o vê (mesmo estando preso nas cores e nos efeitos dos anos 80). Com ele o dark side sai do ecrã e anda aí pelas redes sociais, quase sem precisar de narrativas ou contextualizações. Ora, quando começa o novo filme de star wars e vemos Kylo Ren pela primeira vez, parece um sucessor à altura. Máscara sinistra, voz distorcida e robótica, atitude maléfica. Quando a personagem tem o seu primeiro ataque de histerismo, quase destruindo à “sabrada” a cabine de controlo da sua nave por não lhe fazerem a vontade – demasiado temperamental, sabem? – a coisa começa a cheirar mal. Mas eis que chega o momento de tirar a máscara, no interrogatório a Rey. Pensámos: que medo, agora é que o bicho vai pegar, ela vai ficar horrorizada, ele deve ter o cérebro à mostra, ou metade da cara desfeita, ou olhos de mosca gigante… Não. Ri-me. Foi nesse momento que percebi que afinal o grande vilão deste filme era apenas mais uma personagem dos meus filmes de gravidezes adolescentes. Um miúdo mimado e birrento, que odeia os pais como tantos adolescentes, que quer fingir que é autónomo, e que nunca chegará aos calcanhares das suas influências mas, inseguro e sem auto-estima, faz o que for necessário para provar ao mundo que tem razão. Sim, inclusive matar o próprio pai. É uma estratégia válida.

Enfim, no fim de tudo,  sabe bem rever a princesa Leia (mais bonita que nunca), o Han Solo (paz à sua alma) o Chewbacca, o R2-D2, o C-3PO e a nave mais linda do mundo. Quanto à aparição de 10 segundos do Luke Skywalker: bro, you had one job! Tantos anos passados e não teve tempo para ensaiar uma expressão facial menos awkward de quem acabou de entornar uma travessa de empadão quente por si abaixo?